ANÁLISE

O GÁS NATURAL COMO PILAR DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA EM ANGOLA

31/03/2026

Angola é tradicionalmente reconhecida pela sua produção de petróleo, sendo um dos maiores produtores de crude em África. O País possui um enorme potencial em gás natural, tanto associado ao petróleo quanto não associado (ou seja, gás que não está directamente ligado à produção petrolífera).

TEXTO: CARLA BORGES - PÓS GRADUADA EM DIREITO DO PETRÓLEO E GÁS 

FOTORGRAFIA: CEDIDA 

O Governo angolano tem desenvolvido uma estratégia energética e regulamentar orientada para a valorização das reservas de gás, transformando-as em oportunidades concretas de desenvolvimento económico e social.

Um dos marcos mais relevantes da história energética recente de Angola é o desenvolvimento do New Gás Consortium (NGC), o primeiro projecto de exploração de gás natural não associado no País. Este consórcio integra várias empresas multinacionais e nacionais, reflectindo uma parceria estratégica que posiciona Angola com maior destaque no mercado global de gás.

O NGC opera nos campos offshore de Quiluma e Maboqueiro (Zaire), onde teve início a produção de gás natural. O projecto inclui uma unidade de tratamento onshore, no Soyo, onde o gás bruto é processado antes de ser destinado ao consumo interno e à exportação.

Em Novembro de 2025, a planta de tratamento entrou em operação, com capacidade para processar cerca de 400 milhões de pés cúbicos padrão de gás por dia, para além de produzir aproximadamente 20 mil barris diários de condensado.

Em Março de 2026, foi oficialmente anunciado o início da produção comercial no campo de Quiluma, com uma produção inicial estimada em cerca de 150 milhões de pés cúbicos por dia, podendo atingir os 330 milhões até ao final de 2026.

Este projecto marca uma nova fase no aproveitamento do gás natural em Angola, posicionando o País como um potencial fornecedor estratégico no mercado internacional e abrindo novas perspectivas de investimento em diversos sectores da economia. O papel do investimento privado, tanto nacional como internacional, tem sido determinante para a concretização deste desenvolvimento.

O New Gas Consortium (NGC) é liderado pela Azule Energy uma joint venture entre a ENI e a BP, em parceria com a Cabinda Gulf Oil Company, SONANGOL, TotalEnergies e Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG).

Esta estrutura de investimento permite mobilizar capital significativo, incorporar tecnologias de ponta na exploração e processamento de gás, partilhar riscos e conhecimento técnico, bem como acelerar o desenvolvimento dos projectos com maior eficiência de custos.

A produção é tratada na unidade do NGC, localizada no município do Soyo, cuja inauguração ocorreu em Novembro de 2025. Estes investimentos não só aumentam a disponibilidade de gás no mercado, como também reforçam a atractividade de Angola como destino competitivo para investidores internacionais no sector energético.

As primeiras exportações e entregas de gás, realizadas em Março de 2026, constituem um marco significativo. A produção inicial, estimada em 150 MMSCF/dia, deverá crescer para cerca de 330 MMSCF/dia até ao final de 2026. O gás processado no Soyo é posteriormente encaminhado para a planta de GNL de Angola, permitindo tanto a exportação como o abastecimento do mercado interno.

A Azule Energy, enquanto operadora, assume um papel central neste processo, produzindo mais de 230 mil barris de petróleo equivalente por dia e contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento energético e a transição energética do País.

O desenvolvimento do gás natural traz benefícios que vão muito além do sector energético. Numa economia ainda fortemente dependente do petróleo, o gás surge como uma alternativa estratégica, permitindo reduzir a dependência de combustíveis líquidos, aumentar a segurança energética e disponibilizar uma fonte de energia mais limpa e eficiente para empresas e consumidores.

A integração do gás no sistema de GNL, através da Angola LNG, possibilita a exportação de parte da produção, gerando receitas adicionais que contribuem para o equilíbrio das finanças públicas.

O sector do gás impulsiona o desenvolvimento de outras indústrias, como a produção de fertilizantes e a petroquímica, que utilizam o gás como matéria-prima. Permite a geração de energia eléctrica a custos mais reduzidos, beneficiando o sector industrial e o consumo doméstico. Estas dinâmicas criam um efeito multiplicador na economia, estimulando o crescimento de diversos sectores, incluindo logística, construção e serviços.

Um dos impactos mais visíveis deste desenvolvimento é a criação de empregos. Durante a fase de construção e na operação contínua de projectos como o NGC, são gerados milhares de postos de trabalho directos e indirectos, abrangendo áreas como engenharia, construção civil, logística e serviços especializados.

A Saipem tem contribuído significativamente, empregando uma elevada percentagem de mão-de-obra angolana e promovendo o desenvolvimento de competências locais.

Na fase operacional, as infra-estruturas exigem profissionais qualificados para a operação, manutenção, gestão logística, segurança, tecnologia da informação e administração, criando oportunidades de carreira sustentáveis no sector energético.

O envolvimento crescente de profissionais nacionais em funções técnicas e estratégicas fortalece o capital humano do País, promovendo a transferência de conhecimento e incentivando a formação contínua através de programas de capacitação, estágios e desenvolvimento profissional.

Considerações finais

O desenvolvimento do gás natural em Angola, com destaque para o NGC, representa um verdadeiro ponto de viragem económico e energético.

Através de investimentos privados robustos, parcerias estratégicas e políticas públicas orientadas, Angola está a diversificar a sua matriz energética, atrair capital e tecnologia, criar emprego, fortalecer competências nacionais e gerar novas fontes de receita.

Este processo posiciona o País numa trajectória de crescimento sustentável e de maior integração no mercado global de energia, com benefícios concretos para a economia e para a população angolana.